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Holly Reader

Opiniões literárias, leituras programadas, desafios, devaneios, TAG's, novidades editoriais, eventos, encontros. Aviso: pode criar dependência a livros :)

Dois livros, duas escritoras

IMG_8232.jpgDuas leituras muito diferentes, duas leituras excepcionais. Duas escritoras, duas mulheres em épocas distintas, poder-se-á até dizer que nada têm em comum. Afinal, há algo que as aproxima? A sensibilidade, a dureza das palavras, a lucidez.

 

Joana Bértholo. Nunca tinha ouvido falar desta escritora, desconhecia este trabalho de reflexão e de estudo profundo das palavras que consegue ao mesmo tempo ser entretenimento, aprendizagem e literatura. Numa sociedade onde se paga pelas palavras será que as pessoas se tornam mais cuidadosas com a linguagem ou, pelo contrário, será que começam a desprezá-la? Será que se tornam gratas por ainda terem direito (mesmo que pago) a expressar-se? Ou será que tudo perde o valor? Qual é a diferença entre preço e valor? A linguagem é tudo ou nada? Muitas são as perguntas que nos atravessam a mente ao longo desta leitura desafiante. Se num momento parece que estamos no centro de um jogo de palavras, noutro deparamo-nos com uma factura do "plano de revalorização da linguagem", no seguinte lemos a notícia de um atentado para depois voltarmos a uma discussão amorosa. Não fazia ideia que este livro existia no nosso panorama editorial português, é uma pena que não seja lido e falado por mais gente. Garanto que vale muito a pena. Se estivesse escrito e/ou editado em inglês com certeza estaria nomeado para o Man Booker International Prize

 

"A mentira é a arte de desenhar com palavras dentro do outro os contornos de um animal fantástico que não habita selva alguma."

 

Maria Judite de Carvalho, continua a ser um prazer descobrir esta escritora. A musa da solidão e do silêncio. A contenção na sua escrita é palpável e quase insuportável. Repito, quase insuportável, porque impossível é não continuar a ler e acompanhar as vidas vazias das protagonistas dos seus contos. Mulheres à margem, mulheres mal amadas, mulheres em segundo plano, mulheres ignoradas. Mas, apesar de tudo, mulheres com uma força interior imensa que nos preenche o peito. À medida que vamos caminhando para o desfecho dos contos (e novela) vamos inspirando lentamente e pedindo que cada uma destas mulheres permaneça um pouco mais sob os nossos olhos (de leitores). 

 

"O homem vai andando, outra vez sem objetivo, e pensa noutras pessoas do seu tempo que não vale a pena procurar."

Últimas leituras de outubro

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A antologia de Ron Padgett tem dos poemas mais maravilhosos que já li. “Poemas escolhidos” foram seleccionados em conjunto com o autor que é praticamente desconhecido em Portugal. Com uma escrita íntima e humorista consegue mostrar-nos o seu mundo interior (que muitas vezes identificamos como nosso) e abrir-nos uma nova perspectiva acerca dos acontecimentos quotidianos. Enriquece o leitor com as suas exclamações e ideias súbitas que nos desarmam sem aviso prévio. Escrita simples, directa, informal e luminosa. O autor dá total liberdade à “sua” poesia, deixa-a voar e tomar os contornos que bem entender, como um pai emocionado que vê o filho abandonar a casa ou um pássaro que, se aventura no seu primeiro voo. Enfim, um verdadeiro deleite.  

Um segundo atrás o meu coração deixou de bater
e eu pensei: «Seria uma péssima altura
para ter um ataque cardíaco e morrer,
a meio de um poema», então reconfortou-me
a ideia de que nunca soube de ninguém
que morresse a meio da escrita de um poema,
assim como os pássaros nunca morrem a meio do voo.
Acho.

Foi o primeiro contacto que tive com a escrita de Sam Shepard. Este livro foi escrito durante os seus últimos dias de vida e à medida que a narrativa vai avançando a tranquilidade vai tomando conta de nós, como se nos aproximássemos de uma luz quente que nos envolve. A sua escrita é intensa, o seu estilo é acutilante, quase que sentimos a nossa própria pele a repuxar. A história acompanha um homem que, através da sua janela, observa um outro homem do outro lado da rua. O observador acompanha os movimentos do homem do outro lado da rua que se debate com as tarefas quotidianas pois o seu estado de saúde degrada-se de dia para dia. O fluxo de consciência é imperativo e confunde o leitor, a certa altura deixamos de perceber quem é o narrador e quem são estas personagens que, no final de contas, parecem partilhar o mesmo caminho.

Às vezes alguma coisa passa por mim. Não tenho a certeza do que seja. Às vezes investindo como o vento. Às vezes unhas dos pés ou apenas dedos na espuma do mar. Às vezes cor.

Para começar bem: o primeiro conto de "O corpo dela e outras partes" é dos melhores contos que já li em toda a minha vida. A história, a estrutura, o ritmo, a mensagem, tudo é absolutamente perfeito. Onde é que estava escondida esta escritora? Esta foi a pergunta que fiz a mim própria quando terminei este primeiro conto. Depois passei para o segundo e também gostei bastante (apesar de ser muito difícil superar o primeiro). Quando cheguei ao quarto conto o entusiasmo diminuiu um pouco mas mantive-me interessada. O último conto foi o remate final que eu precisava. Os contos têm vários detalhes mágicos, mas esperem, não deixem de ler se esta não for a vossa praia, também não era a minha e fiquei agradavelmente surpreendida. Os contos transmitem mensagens que, apesar de não conseguirmos traduzir em palavras, são muito fortes e nos fazem reflectir (especialmente para o género feminino), é sem dúvida um daqueles livros dos quais é difícil desligar. Carmen Maria Machado fez algo muito original e merece muito mais destaque.

Não sei se sou a primeira mulher a caminhar até ao altar da igreja de St. George com sémen a escorrer-lhe pela perna abaixo, mas gosto de pensar que sim.