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Holly Reader

Opiniões literárias, leituras programadas, desafios, devaneios, TAG's, novidades editoriais, eventos, encontros. Aviso: pode criar dependência a livros :)

Holly Reader

12 de Julho, 2017

Vertentes do olhar | Eugénio de Andrade

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Pronto, já me rendi à poesia. Requisitei o livro deste senhor na biblioteca e vim até casa a lê-lo pela rua. Foi uma experiência inesquecível: o meu corpo já não estava na rua, os meus pensamentos estreitavam-se com os do autor e acho que atingi um estádio de "plenitude". 

 

Apesar de não estar escrito na forma da "poesia convencional" tendo em conta que todos os textos são apresentados em texto corrido há aqui muito de poético. Dá para pensar, dá para cismar, dá para sorrir, dá para nos fecharmos mais em nós próprios. Gostei muito desta experiência. Vou continuar sempre nesta maré de poesia. Chamem-me quando acharem que vale a pena.

 

"Não gostaria de insistir, mas a beleza dos jovens que se amam é melancólica. Eles não sabem ainda que o desejo de morte é o mais perverso, que só uma coisa os tornaria puros: roubar o fogo e incendiar a cidade."

09 de Julho, 2017

Os níveis da vida | Julian Barnes

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Lembro-me de ler no instagram da Bertrand uma citação deste livro, na altura tirei-lhe um print screen e adicionei o livro à wishlist (deixo-vos em baixo a citação). Este livro começa por ser sobre balonismo mas cedo nos apercebemos que esta actividade é explorada até ao seu íntimo, revelando assim o carácter dos personagens. É muito difícil falar acerca da história deste livro pois é ao mesmo tempo tão ampla e tão específica que me baralha. 

 

Ao início conta-nos as origens do balonismo: as primeiras viagens, os primeiros contratempos, as primeiras pessoas que viajaram. Ao passarmos para a apresentação das personagens começamos a perceber a inteligência deste autor que tão subtilmente associa o balonismo à vida. Passamos depois para a fotografia, para a associação do balonismo à fotografia e o que daí resultou. Continuamos a acompanhar as mesmas personagens e as suas relações. Para quem não se interessa particularmente por nenhum destes temas não se preocupe porque eu também não me interessava e o livro continuou a ser bem interessante.

 

Mais tarde, já na última parte do livro passamos para uma realidade muito específica e muito pessoal: a morte da mulher do autor. Isso mesmo. A morte de Pat Kavanagh, mulher de Julian Barnes que faleceu em 2008. Se até aqui o livro se afigurava interessante mas um pouco estranho, a partir daqui ganha contornos delicados que me emocionaram muito. A sinceridade e abertura do autor para nos contar a sua história é desarmante. Não há forma de escapar às lágrimas. Foram marcações atrás de marcações e tive de parar várias vezes. É tudo tão real, houve uma identificação muito forte comigo própria caso me visse na mesma situação. Este autor escreve muito bem, uma escrita simples e delicada, com comparações das mais bonitas que já li. É possível imaginar o autor a escrever isto e desejei muito ter conhecido este casal maravilhoso. O seu sentimento de perda é palpável. Como leitora senti-me impotente e muito impressionada.

 

As referências à pintura, à ópera, à literatura, deram-me vontade de conhecer mais. Adorei as interpretações do autor para alguns dos espectáculos a que assistiu. Pega também em algumas expressões de artistas que descreveram a perda e o luto e tenta entendê-las, acrescentado sempre o que sentiu e ainda sente. No final do livro fiquei com uma vontade muito grande de escrever a este autor, tentar confortá-lo com as minhas palavras. Não o fiz porque sei que ele não precisa disso.

 

Adorei a última parte do livro, foi aí que realmente criei ligação com este autor. Mas a forma como as primeiras duas partes fazem sentido depois da leitura da última, é impressionante. Copiando as palavras que li na contracapa, Julian Barnes é "um mago do coração"

 

"Juntamos duas pessoas que ainda não se tinham juntado. Às vezes é como a primeira tentativa para prender um balão de hidrogénio a um balão de fogo: preferimos que se despenhe e arda ou que arda e se despenhe? Mas às vezes resulta, e algo de novo se faz e o mundo transforma-se."

 

Minha pontuação no Goodreads: 3.5

09 de Julho, 2017

Novos livros para a estante

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Estes três já habitam por aqui, pouco a pouco vou diminuindo a minha wishlist (nnnnaaaa, na verdade ela vai quase sempre aumentando de dia para dia). Mas antes que fiquem a pensar mal de mim, estes foram oferecidos <3

 

(ando a portar-me muito bem, para já)

 

Quem já leu algum destes? Prognósticos?

05 de Julho, 2017

O rosto de Deus | Ana Teresa Pereira

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Ainda estou atordoada com esta leitura. Não conhecia a escritora nem nunca tinha ouvido falar, trouxe este livro por recomendação. Ao pesquisar um pouco mais sobre ela descobri que é muito reservada, mesmo nas suas raras aparições públicas para receber os prémios que já ganhou. Talvez por isso fosse para mim desconhecida. 

 

Não tenho a certeza de ter entendido completamente o livro mas adorei a experiência de leitura - desde o desconforto, passando pelo humor, terminando meia assustada. Sim, é possível. A autora vai jogando com as emoções do leitor como bem entende e nós só conseguimos segui-la. Queremos saber o que vem a seguir ou porque não ficamos satisfeitos com a explicação ou porque ficamos intrigados com a confusão das descrições. Uma das personagens principais - Tom - tem tudo a girar à sua volta sem nunca sabermos o que vai na sua cabeça, mesmo os diálogos com ele são bastante raros e, no entanto, creio nunca ter conhecido uma personagem tão intrigante quanto esta. A impressão que temos dele é apenas a que nos é dada pelos outros personagens. Impressões vagas e ao mesmo tempo potentes.

 

Ao início pareceu-me que a autora estava a escrever poesia em prosa tal é o requinte e douçura da sua escrita. No entanto, também consegue semear o medo e ser implacável. Esta dualidade (que emprega sem esforço) dá muita profundidade ao livro. 

 

O livro está dividido em duas partes para nos dar a conhecer duas perspectivas. Gostei especialmente do mistério que paira no ar e que fica sempre por esclarecer (caso contrário não seria mistério). Penso que este livro trata do poder que os outros podem ter sobre nós e sobre esta vontade tão humana que temos ao pensar que o amor nos funde num só, mas talvez me tenha passado ao lado a mensagem mais importante.

 

Para mim "O rosto de Deus" é a ofuscação do amor

 

Fiquei muito impressionada com a autora, vou querer ler mais.

 

Minha pontuação no Goodreads: 3,5 (se fosse possível)

03 de Julho, 2017

Debaixo da Pele | David Machado

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No início não me rendi a este livro. A primeira parte deixou-me insatisfeita, esperava mais dor, mais raiva. Assim que iniciei a segunda parte pensei "agora é que é" e assim foi até ao final. Vale a pena continuar a descobrir este autor. A escrita é simples e ritmada. Há qualquer coisa nas palavras e na forma de escrever que não nos deixa respirar, somos obrigados a continuar. Adorei mergulhar na pele do narrador na segunda parte e descobrir os medos de Manuel na última parte. Na primeira parte conhecemos Júlia, a peça que liga todas as histórias, mas não consegui criar relação com ela.

 

Há reflexões importantes ao longo de todo o livro e apercebemo-nos que mais importante do que os actos são as consequências deles (muitas vezes irreversíveis) que afectam de forma tão forte as pessoas com que nos relacionamos. É essencial "fazer as pazes" com os traumas do passado caso contrário estaremos sempre a repeti-lo. O que mais me fica da mensagem deste livro: ..."como se, na verdade, tudo o que aconteceu nunca parasse de acontecer." O título não poderia estar mais adequado.

 

Continua a existir o realismo na escrita de David Machado, uma presença tão forte do autor em cada palavra e cada movimento dos personagens que é impossível não acreditar. O conhecimento profundo da mente de um adolescente, todas as perguntas que fervilham nas suas cabeças, os comportamentos descabidos, a influência dos adultos, tudo isso está retratado aqui. 

 

Recomendo muito. Leiam sem saber nada.

 

Minha pontuação no Goodreads: 4*

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