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Holly Reader

Confissões de uma bookaholic.

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Morreste-me | José Luís Peixoto

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Este livro "deu cabo de mim". Penso que é assim que melhor explico. Ao longo do livro José Luís Peixoto conta-nos a história da morte do pai. Mais do que isso: conta-nos o que ficou. Neste caso o que ficou é algo maior do que aquilo que existia: o vazio maior do que a presença, a dor chacina a alegria dos momentos passados, os sítios têm sempre algo a dizer.

 

Este livro é como uma carta, que também pode ser um testemunho, é a prova indelével do que se passa a carregar depois da perda de um pai.

 

Aqui é tudo contado sem freios ou filtros, talvez por isso atinja a parte mais macia do coração. Este é também um livro difícil. Não há pausas para descansar da dor, não há remédio que atenue a força dos pensamentos. Talvez se a memória não existisse fosse possível continuar a viver livremente. Depois da morte as ruas falam. 

 

Li este livro num sítio público e não consegui evitar chorar (muitas vezes). É pesado. Vale a pena pelo retrato fiel da ausência. No final fica aquele arrepio por as palavras escolhidas serem as certas.

 

Não há dúvidas, 5 estrelas bem brilhantes.

Hoje estarás comigo no paraíso | Bruno Vieira Amaral

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Estão reunidas as condições para termos um bom livro em mãos: escrita cuidada e fluída, uma boa história para ser contada e o sentimento de proximidade com o autor. Fui logo agarrada pela sua mão experiente e deixei-me conduzir sem pensar muito, reflectindo apenas quando o autor me chamava a contas - com citações, letras de músicas, finais de capítulos ou vozes de outros personagens.

 

Ao início a narrativa parece desenvolver-se rapidamente deixando no ar a promessa de uma viagem atribulada. De facto, a viagem é bastante atribulada e pelo meio dela contamos ainda com a ligação emocional do autor com a história que é parcialmente verdadeira (que parte dela o é, ficaremos sem saber). Esta é uma das minhas partes preferidas - esta ligação do autor com a história que nos é revelada aos poucos e do seu percurso como escritor. Gostaria que me tivesse contado mais acerca disto. (Fica aqui o pedido).

 

Achei também muito interessante (e uma sábia escolha) o facto de o autor ter colocado várias citações de outros autores ao longo da narrativa, à medida que os fios invisíveis iam sendo descobertos. Outra das coisas que gostei foi a aura de "mistério" que paira (e continuará a pairar) ao longo de toda a história, mas principalmente à medida que caminhamos para o final. Tive uma supresa nas páginas finais que me fez arrepiar e foi aí que tive a certeza que o João Jorge tinha mexido comigo. Continuarei a pensar nele como alguém que sinto próximo de mim.

 

As descrições da vida na margem sul nos anos 80 são impressionantes e é possível visualizar tudo o que é descrito. Fiquei com uma noção que não tinha acerca da pobreza e discriminação que ali se vivia (será que ainda se vive?). Não tendo nunca (ou quase nunca) convido de perto com estas situações foi algo que me revoltou e que me fez querer mudar aquele passado daquelas pessoas tão distantes de mim e que de alguma forma estavam sentadas ao meu lado enquanto lia a sua história.

 

Parabéns ao autor por tudo isto. Pelas relações entre todos os personagens tão bem descritas, por me ter ilucidado acerca de como se vivia, por revelar todo o seu percurso, por se ter arriscado a contar a história de um primo do qual pouco se lembrava e, sobretudo, por o ter libertado.

 

O que é que não me faz dar 5 estrelas a este livro? Neste caso tenho uma resposta muito objectiva, o que nem sempre é o caso. As descrições de Angola - por vezes feitas em forma de diálogo - são, na minha opinião, demasiado extensas, confesso que me aborreceram. Entendo que eram necessárias para contextualizar as personagens mas achei-as excessivas. As paragens que fiz na leitura foram apenas nestes momentos. Não há a menor dúvida de que estamos perante um grande escritor.

 

Em baixo transcrevo uma passagem fantástica em que o autor se refere à sua ligação com o pai.

 

"E a quem é que ele poderia dizer isto se não ao seu único filho homem, aquele que o poderia ter rejeitado, o único que, depois de tudo, ainda estava lá para o ouvir? Quem lhe aceitaria palavras tão secas se não precisasse tanto de as ouvir, de lhe beber a voz, a dureza, a secura e todo esse enorme amor errante, em trânsito, fustigado, corrido, escorraçado e tão, mas tão vivo e feio e árido e fecundo e podre e belo?"

 

Minha pontuação no Goodreads: 4*

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