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Holly Reader

Confissões de uma bookaholic.

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#1. Holly diz...opinião "Os detectives selvagens" de Roberto Bolaño

 

Este livro é grandioso. Foi muito bom descobrir mais um pouco deste escritor-génio. Olhar para o livro é como uma miragem, desde que terminei de o ler que o tenho às voltas na cabeça. Sonho que estes dois personagens (Arturo e Ulisses) ainda andam por aí, a vaguear por esse mundo fora. Torço para que se encontrem a si próprios um pouco mais em cada lugar. Não os conheço, não sei como são e, no entanto, vejo-os tão claramente: a atravessarem o deserto, ao volante de um carro, dentro de um emprego disfarçado.

 

Creio que a estrutura utilizada por Bolaño fez todo o sentido para este livro. As emoções mantêm-se à flor da pele, há novas informações em cada virar de página, o ritmo é frenético, mantemos os olhos bem abertos para não perdermos uma só pitada da originalidade deste mestre.

 

Não há forma de explicar o efeito deste livro. Resta-me apenas mencionar alguns dos sintomas: riso, muito riso, estranheza, gargalhadas, os olhos cerram-se como fendas, o coração acelera, há um olho que fica um pouco molhado, o coração aperta, começam as perguntas às sombras, alívio generalizado, coração novamente acelerado, custa ler as palavras (a vista também quer ser rápida) e a porta fecha-se na nossa cara. O que é que está do outro lado?

 

Aconselho para quem gosta de subir montanhas sem sair do lugar. 5 estrelas.

 

"...o cerne da questão é saber se o mal (...) é casual ou causal. Se é causal, podemos lutar contra ele, é difícil de derrotar mas há uma possibilidade, mais ou menos como dois boxeadores do mesmo peso. Se é casual, pelo contrário, estamos fodidos. Que Deus, se existe, nos encontre confessados."

Noturno Chileno | Roberto Bolaño

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Bolaño é mestre no uso das palavras. Comecei muito bem esta leitura, adorei as primeiras páginas. Depois, perdi-me, a mistura de histórias fez-me voltar atrás várias vezes. Voltei a gostar muito em algumas partes específicas mas não como no início. Os diálogos entre os personagens são do mais desconcertante possível. Se por vezes me faziam rir à gargalhada, outras ficava com a sensação que eram todos loucos.

 

É um livro pequeno e recheado. Frenético, por vezes. Confuso. Acho que pela primeira vez gostei de repetições de palavras, fizeram sentido e deram intensidade à situação. Ponto extra para a forma como o narrador desconstrói as suas próprias afirmações, como nos faz duvidar. Senti-me enganada e estranhamente atraída. No entanto, se logo no início lhe dediquei a minha total atenção não consegui voltar a fazê-lo em mais nenhum momento do livro. Estava constantemente à espera do grande momento de Bolaño que não chegou a acontecer. Ou talvez já tivesse acontecido logo naquele início (vale a pena regressar ao início). Acaba de forma desconcertante, quase a roçar o estúpido. É perfeitamente possível que não o tenha entendido. Acho que este foi o primeiro escritor-génio que li. (Talvez Saramago também se enquadre aqui, embora de uma forma mais consciente). Parece-me que Bolaño não tem noção do impacto que provoca e portanto é-lhe fácil trocar as voltas de tudo, quase "gozar" com o próprio texto.

 

Tudo começa com um padre (e crítico literário) a relembrar alguns dos momentos mais marcantes da sua vida. Posso também adiantar que tudo acaba assim.

 

Todo o livro é rodeado de uma aura pesada, quase diabólica, na iminência de um desastre.

 

Vou continuar a ler mais de Bolaño. E o próximo será já daqui a uns dias.

 

"...em certas alturas, os meus ganidos eram apenas audíveis para aqueles que com a unha do indicador eram capazes de raspar a superfície dos meus escritos, só para esses, que não eram muitos, mas que para mim eram suficientes, e a vida continuava e continuava e continuava, como um colar de arroz em que cada bago tivesse uma paisagem pintada..."

Morreste-me | José Luís Peixoto

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Este livro "deu cabo de mim". Penso que é assim que melhor explico. Ao longo do livro José Luís Peixoto conta-nos a história da morte do pai. Mais do que isso: conta-nos o que ficou. Neste caso o que ficou é algo maior do que aquilo que existia: o vazio maior do que a presença, a dor chacina a alegria dos momentos passados, os sítios têm sempre algo a dizer.

 

Este livro é como uma carta, que também pode ser um testemunho, é a prova indelével do que se passa a carregar depois da perda de um pai.

 

Aqui é tudo contado sem freios ou filtros, talvez por isso atinja a parte mais macia do coração. Este é também um livro difícil. Não há pausas para descansar da dor, não há remédio que atenue a força dos pensamentos. Talvez se a memória não existisse fosse possível continuar a viver livremente. Depois da morte as ruas falam. 

 

Li este livro num sítio público e não consegui evitar chorar (muitas vezes). É pesado. Vale a pena pelo retrato fiel da ausência. No final fica aquele arrepio por as palavras escolhidas serem as certas.

 

Não há dúvidas, 5 estrelas bem brilhantes.

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