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Holly Reader

Opiniões literárias, leituras programadas, desafios, devaneios, TAG's, novidades editoriais, eventos, encontros. Aviso: pode criar dependência a livros :)

Com o mar por meio | Jorge Amado e José Saramago

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Estive presente no lançamento deste livro na Fundação José Saramago e foi maravilhoso, todo o evento rodeado de uma aura mágica. Foi possível sentir no ar (através de leituras de excertos) a intensa e sincera amizade entre estes dois grande escritores, e foi em homenagem a essa amizade que este livro foi construído. Não conhecendo ainda a obra de José Amado fiquei fascinada pelas suas palavras e carácter íntegro.

 

Quem deve conhecer este livro? Todos os fãs de Saramago e Jorge Amado, claro, para vocês será uma leitura emocionante. Mas este livro também pode (e merece) ser lido por quem ainda não conhece nenhum dos autores, pode ser um estímulo para os indecisos.

 

É um livro sobre amizade sem artifícios, com muito sentido de humor (de ambas as partes) e sobretudo sobre a partilha do amor pela língua portuguesa, foi esse amor em comum que juntou estes dois senhores. Para além de tudo isto o livro inclui fotografias e reproduções de algumas cartas escritas à mão pelos escritores numa edição lindíssima da Companhia das Letras. O que posso dizer mais?

 

Ronda das mil belas em frol | Mário de Carvalho

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Foi com prazer que regressei a este autor. A sua escrita nunca farta, posiciona-se muito próxima do leitor e tem um requinte inerente. Neste livro, completamente dedicado à figura feminina, encontramos o autor de sempre em situações caricatas descritas com ironia e uma sensibilidade muito particular. É assim possível descobrir todo um mundo de mulheres mais ou menos encantadas e tão diferentes entre si. 

 

É um livro para rir, descontrair e deixarmo-nos envolver pela escrita viciante do autor. É difícil parar de ler, os contos curtos sucedem-se uns aos outros e o livro rapidamente se esgota (mesmo sem pressa de acabar).

 

Contudo, não me surpreendeu. Encontrei nestas páginas o que estava à espera, foi reconfortante e portanto nada desafiante. De resto, só posso dizer bem dos momentos bem passados. Enquanto isso, já tenho mais um livro do autor na lista de desejos.

 

Vejam também a minha opinião do livro "Quem disser o contrário é porque tem razão" do mesmo autor.

 

"...na madrugada seguinte teria de partir para Dubrovnik, onde se anunciavam upgrades de crowdsourcing certifications e accreditations. Talvez a prudência aconselhasse um previous arrangement de ficheiros. Ela tinha muito que trabalhar. Sorry."

Antídoto | José Luís Peixoto

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Começa a ser difícil para mim dizer se já me rendi ou não a José Luís Peixoto. O "Morreste-me" elevou muito a fasquia e faz-me continuar à espera de ser novamente deslumbrada por ele. No caso deste livro houve momentos em que gostei bastante, ouve outros em que senti que tudo se repetia. O recurso à repetição ou reafirmação pode ser poderoso ou pode perder o impacto, aqui deparei-me com as duas situações. Há reflexões tão carregadas de dor que me surpreenderam mas em muitos momentos dei por mim a não conseguir prestar atenção.

 

O livro é composto por pequenos contos que diz ser inspirado no album The Antidote dos Moonspell. Contudo, pode perfeitamente ler-se sem nenhum conhecimento prévio acerca do album. O título faz sentido e há frases que realmente nos transportam para as suas histórias. Não tenho dúvidas quanto ao talento do escritor e adoro que aborde sempre "temas" tão próximos de nós. Despeço-me dele por agora com a certeza de que vou regressar.

 

"Sei que existem cemitérios. Sei que a casa onde estás, o lugar onde te imagino a fazer tantas coisas, a não te lembrares de mim, é um lugar de destroços."

Evento | José Saramago, Jorge Amado e livros além-mar

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Não podia deixar passar este evento em branco, foi dos lançamentos de livros mais comovedores a que assisti. Adorei estar presente em cada minuto, junto de outras pessoas que adoraram tanto quanto eu.

 

Foi mágico poder conhecer mais acerca da relação entre estes dois escritores - José Saramago e Jorge Amado. Assistir a leituras onde o estreitamento de ligações entre Portugal-Brasil era notório fez-me querer recuar no tempo e presenciar esses momentos.

 

Foi surreal brindar ao aniversário de Saramago com Pilar del Río e ainda trazer um livro maravilhoso por ela assinado.

 

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Para além de tudo isto fiquei a conhecer a Fundação José Saramago, um sítio muito especial onde ficou prometida uma visita com mais calma.

 

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A sangue frio | Truman Capote

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Confesso já: este livro não foi mesmo nada do que eu estava à espera. Se é verdade que Capote foi pioneiro nesta abordagem, relatando uma história real de um crime brutal como se estivesse na cabeça dos vários intervenientes, também é verdade que deu muito mais foco à descrição dos acontecimentos esquecendo-se de manter o leitor interessado. Se a própria descrição me poderia ter mantido interessada? Podia, mas não foi isso que aconteceu. Em primeiro lugar estava à espera que o autor se tivesse colocado a si próprio como personagem uma vez que de facto esteve presente e acompanhou as investigações. Como não o fez senti que o livro está muito próximo da escrita jornalística. Assim, é muito raro encontrar uma ou outra opinião mais subjectiva. 

 

Se a própria escrita de Capote me podia ter encantado? Podia, mas também não aconteceu. Não há dúvida de que a escrita tem qualidade e a forma como vai alternando entre os diversos acontecimentos dá uma sensação de conhecimento profundo. No entanto, não me encheu as medidas.

 

Se o crime foi brutal? Foi, ainda para mais tendo em conta as razões que motivaram os assassinos. Essa para mim foi a parte mais interessante, a forma como fomos conhecendo aos poucos a personalidade e a história deles. Faltou-me, no entanto, algo que me fizesse arrepiar, sentir o medo que a família assassinada sentiu. A própria descrição da noite fatal narrada pela boca dos criminosos não me despoletou qualquer emoção.

 

Conclusão? Na minha opinião vale a pena conhecer o livro pelo estilo que apresenta e pelo cuidado da escrita, mais numa perspectiva de conhecimento e aprendizagem do que pelo interesse do relato em si. Penso que a história acabou por perder impacto pela forma como foi contada neste livro. 

 

Quero continuar a conhecer Capote, espero reencontrar o escritor que conheci em Boneca de Luxo.

Teatro Vertical | Manuel Alberto Vieira

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Primeiro livro lido para os projectos: #lerosnossos #nestórias #christmasinthebooks2017

 

Estou a falar muito a sério quando digo que as ilustrações deste livro são maravilhosas. Neste caso fazem todo o sentido e dão profundidade aos contos. Gostei de conhecer a escrita deste autor. Se ao início fiquei um pouco de pé atrás, rapidamente me deixei embrenhar na estranheza, simplicidade e originalidade.

 

Todos os contos me fizeram pensar duas vezes, nenhum deles é linear. Gostei especialmente das descrições de alguns movimentos das personagens e dos seus comportamentos inesperados. As partes do corpo e os sentidos são centrais, na maior parte das vezes descrevem os estados de espírito das personagens.

 

Todos nós representamos uma peça, o teatro vertical parece não ser mais do que a vida no seu estado mais natural. Talvez aqui se tenha tentado descortinar os artifícios que habitualmente usamos no contacto com o outro.

 

"O homem agita com os lábios um palito inexistente, olha para cima, depois para baixo, dá um passo em frente, aproxima o rosto do dela, à distância de um beijo, abre a boca - coisas podres -, não diz nada, ela assusta-se, ele fecha a boca, contorna-a, avança em marcha lenta, os pés que raspam a terra chamam-na."

Cartas a um jovem escritor | Colum McCann

 

Fiquei logo interessada no título mas o livro conseguiu superar as minhas expectativas. Num tom informal e despretensioso o autor conseguiu captar a minha atenção. No final deixei-o cheio de marcações às quais pretendo regressar. É sobretudo um livro para reflectir em cada frase pois cada uma delas contém uma mensagem em si mesma. 

 

Creio que o livro funciona muito bem como companhia ao jovem escritor, vai caminhando lado a lado com ele, relembrando-o daquilo que interessa em cada fase da escrita. Vai além do óbvio e reforça tudo o que nos custa mais interiorizar. Desmistifica o papel do escritor como "o iluminado" trazendo-o à terra e assim consegue torná-lo mais próximo do jovem escritor

 

Destaco em baixo uma das frases que penso resumir muito bem o trabalho de um escritor.

 

"Mande a gramática às urtigas, mas só se souber a gramática. Mande a formalidade às urtigas, mas só se tiver aprendido o significado de formal. Mande o enredo às urtigas, mas talvez seja melhor, em determinada altura, fazer alguma coisa acontecer, e a estrutura às urtigas, mas só depois de ter pensado nela tão exaustivamente que é capaz de percorrer o seu trabalho de olhos fechados sem tropeçar."

 

Livro cedido pela editora Clube do Autor a quem muito agradeço.

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